quarta-feira, 22 de junho de 2011

Estação das Letras

Nada nesta vida é por acaso. E não foi por acaso que eu resolvi, numa segunda-feira, virar a noite escrevendo um conto (está logo aí abaixo, Um beijo por 3 reais). Eu que nunca havia escrito um conto na vida! Nem pequenininho! Não sabia nem por onde começar. E aí vocês me perguntam: “O que deu em você então, Carol?”

Deu que no sábado passado, caí de pára-quedas no curso Vivência Literária, que acontece num lugarzinho no Flamengo chamado Estação das Letras. É um lugar fantástico, cheio de cursos e oficinas de literatura. Descobri o lugar pela internet na sexta, e não tive a menor dúvida: “Amanhã estarei lá!!!”. Então enviei um e-mail perguntando se ainda havia vaga para a “aula” de sábado, e felizmente a resposta foi positiva. A única exigência era que eu levasse um texto em prosa, de no máximo 2 folhas. Eu com meus botões pensei: “Sem problemas... Levo uma das minhas crônicas.. tranqüilo...”.

Foi o que eu fiz. Escolhi "Um dia em São Paulo", que havia feito sucesso num cursinho que eu participei na Casa do Saber. E, no dia seguinte, lá estava eu acordando cedo e atravessando meia cidade para poder estar às 10:00h no Flamengo.

Assim que entrei na sala, o primeiro indício de que eu havia subestimado a “aulinha” apareceu. Um dos “alunos” me perguntou se eu havia tirado cópias. Muito ingenuamente, perguntei: “Cópias, de que?”. E ele respondeu, como se fosse a coisa mais normal do mundo: “Cópias do seu texto, para todos irem lhe acompanhando enquanto você lê”. Pensei: “Caramba, a parada aqui é profissa!” e fui rapidinho tirar as cópias na papelaria ao lado.

Porém, apenas quando eu recebi as cópias dos outros “alunos” foi que entendi o porquê daquilo tudo. Para o meu espanto, os textos eram super elaborados e profundos (alguns inclusive eu ainda não consegui entender, diga-se de passagem). E é por isso que eu estou este post inteiro colocando as palavras “aula” e “alunos” com aspas, porque simplesmente eu me encontrava no meio de escritores (de verdade, não como eu) e jornalistas! Pessoas que trabalham com isso, que tem como profissão escrever!

Imaginem como eu fiquei quando percebi isso, eu e minha cronicazinha. Imaginou alguém bem desesperado procurando um buraco para se esconder? Pois bem, eu não tinha mais como fugir, o jeito era apelar para o sorrisinho, e pensar: “Carolina, ninguém te conhece aqui... Ok, você VAI PASSAR VERGONHA, mas tranqüilo, relaxa, respira fundo, um, dois, um, dois...”

Um a um, os textos iam sendo lidos por seus respectivos autores, e para o meu desespero maior, tanto o coordenador da “aula” quanto os “alunos” comentavam os textos, elogiando as partes boas e criticando as partes ruins, além de corrigirem erros de concordância e sugerirem algumas mudanças. E eu, num esforço psicológico de superação, mentalizava ora “Calma Carolina, vai dar tudo certo”, ora “Por favor, esqueçam de mim... por favor... por favor...”.

Até que chegou a minha vez (não, eles não esqueceram...). E antes de começar a ler, tive que fazer um pronunciamento, numa atitude quase que de sobrevivência: “Gente, como mais nova da turma, eu gostaria de dizer que SOU CAFÉ COM LEITE, TÁ?!”. Nada adiantou. Todos disseram que não tinha essa não, e que era para eu ler meu texto igual a todo mundo. Então eu li, e para a minha surpresa o texto agradou! Recebi elogios!!!! E críticas também, é claro. No final, o coordenador meu passou um desafio: “Carol, não há dúvidas que você escreve muito bem (eu juro que ele falou isso!!!), mas seu texto é uma crônica do início ao fim, e você deve ter percebido que trabalhamos aqui mais com ficção. Então para o nosso próximo encontro, quero que você traga um conto, ok?”. OK!!!!

Entenderam agora o porquê do conto abaixo? Esse foi só o primeiro. Como o próximo encontro é apenas em meados de julho, quero fazer mais alguns para poder escolher o melhor. Mas para isso, preciso que vocês (queridos leitores) COMENTEM OS CONTOS!!! O google analytics está me dizendo que tive vários visitantes, mas ninguém comenta nada! Críticas, críticas e mais críticas são muito bem vindas. E claro, se você quiser elogiar, também póóóóóde.

A Estação das Letras fica na Rua Marquês de Abrantes, 177, loja 107 – Flamengo – Rio de Janeiro - Tel: (21) 3237-3947

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Conto n° 1 - Um beijo por três reais

Era uma festa junina. Ou pelo menos tentaram que fosse. Na verdade, era para ser uma festa comum. Mas como aconteceria bem no mês de junho, decidiram fazer uma fogueira de plástico, colocar umas barraquinhas de brincadeiras, vender canjica e salsichão, e contratar uma banda de forró. Não deu muito certo, e de fato não agradou a muitos, mas Cecília não saberia opinar sobre isso. Se lhe perguntassem, talvez ela nem soubesse que estava numa festa junina.

Sua mente não se encontrava nem na festa, nem na lua, mas em Eduardo, seu ex-namorado. Ou como ela mesma o apelidou, o “falecido”. Foram dois anos de muito investimento na relação, muito amor no coração e muito Rivotril goela abaixo. Eduardo definitivamente não era um namorado fácil. Ciumento ao extremo, exigia de Cecília uma Cecília que ela não era e nem poderia ser. Uma Cecília submissa, anulada, transparente. Ela o amava. Mas amava mais a si mesma. E por isso ela o deixou, de forma repentina e decidida, como se por um milagre tivesse conseguido fugir de uma prisão de segurança máxima. Não fez questão de buscar suas roupas na casa dele nem se despediu de sua família. Muito menos cobrou aquele dinheiro que ele lhe estava devendo. Entre o passado e o presente, apenas uma carta, lhe implorando que a deixasse ir em paz.

As amigas, negligenciadas durante o período do namoro, custaram a acreditar na atitude de Cecília. Mariana achava que ela havia se apaixonado por outro. Teresa tinha quase certeza absoluta que era ele que havia se apaixonado por outra. Alguns palpites mais maldosos diziam que o ciúme de Eduardo havia se tornado violento, a ponto de Cecília dar queixa em delegacia. Cecília negava tudo, mas nada que ela dizia parecia suficientemente convincente. O assunto virou a pauta semanal, e o telefone sem fio criou pelo menos mais cinco novas versões para o rompimento.

Naquela noite da festa, Cecília havia decidido que sairia de seu casulo, enfrentaria seu luto, e buscaria diversão. Qualquer diversão. E foi assim que ela se encontrou na pseudo festa junina, com as amigas negligenciadas, que queriam sua companhia mais pelo desejo fulminante de entender melhor o término, do que pela companhia em si. Cecília sabia disso, mas preferiu ser sonsa a ter que aturar mais uma noite sozinha.

Entre uma barraca e outra de brincadeira, Cecília fingia que se divertia. Conversava muito, apesar de não dizer coisa com coisa, e paquerava muito, apesar de não enxergar nada e ninguém. Cecília era apenas corpo, sua alma estava distante, em mundos habitados pela dúvida e pela solidão. A saudade de Eduardo era maior que a certeza de ter feito a coisa certa. E tudo o que ela desejava era que ele desobedecesse ao pedido explícito na carta, e fosse atrás dela. Ela sonhava com juras de amor eterno e promessas de mudanças, um relacionamento mais maduro, um homem diferente na carcaça de Eduardo. Ela sonhava acordada, num transe absoluto, até que algo ou alguém a trouxesse de volta à realidade fria daquela festa.

Uma destas voltas foi ocasionada por Renato, que num solavanco fez Cecília voltar a si. “Me desculpe, foi sem querer”. Mas ela ainda estava acordando de seu sonho, e por um instante confundiu Renato com Eduardo. Sem dúvida, as semelhanças entre os dois eram evidentes. Morenos, altos, olhos claros, sobrancelhas grossas. O mesmo sorriso. Incrivelmente, o mesmo olhar. Por um instante, a música parou e tudo se tornou inerte. E permaneceu assim até Renato quebrar o silêncio e perguntar:

- Quer um beijo? Custa apenas três reais”.
- O que?
- Sim, três reais, você me parece precisar de um beijo.

Não acreditando no que havia acabado de escutar, Cecília, sem a menor intenção de entender a situação, virou-se de costas e foi atrás de suas amigas. Sua mente confusa lhe fazia perguntas: “Será que já bebi tanto assim? Ele realmente estava me cobrando por um beijo? Ou estou imaginando coisas?” Convenceu-se de que não havia bebido ainda o suficiente, e buscou mais uma cerveja no bar. Ficou na dúvida se contava ou não para suas amigas o que havia acontecido, e buscou mais uma cerveja no bar. Resolveu não contar nada, e buscou mais uma cerveja no bar. Sonhou mais uma vez com Eduardo, e buscou mais uma cerveja no bar. Até que lá pelas tantas, Cecília não tinha mais pernas para buscar nada no bar. Ela estava completamente bêbada.

Sentada no chão, em meio a uma dezena de vultos, Cecília não interessava nem mais às amigas, nem mais a si mesma. Era pura derrota. A saia transpassada mais parecia uma toalha enrolada. A blusa caída pelos ombros. O penteado desfeito. O olhar vazio. As mãos no joelho. A dor enfraquecida pelo álcool. E permaneceu assim por muito tempo, até que algo chamou a atenção de Cecília. Mesmo bêbada, mesmo com um olho aberto e outro fechado, mesmo enxergando tudo triplicado, seu olhar foi fisgado por uma cena inusitada.

Uma fila, apenas mulheres, muitas mulheres. Lá na frente, um homem, apenas um homem. E beijos. Beijos na boca. Cada mulher parecia dar algo para o homem, e em troca ganhava um beijo. E Cecília passou a observar aquilo de longe, sem acreditar, sem conseguir entender seu propósito, sem coragem para perguntar às suas amigas se ela estava imaginando coisas. Tentou, tentou, e na terceira tentativa, conseguiu se levantar.

À medida que se aproximava, Cecília constatava que aquilo era mesmo realidade, até que finalmente leu: “Barraca do beijo. Apenas R$3,00”. Não entendeu. “Barraca... beijo... três... reais...apenas... o que?”. Seu olhar bêbado havia fixado na placa, até que desviou a atenção para a primeira moça da fila que, ansiosa, entregou os 3 reais ao rapaz, colocou uma das mãos no pescoço dele, a outra em seus cabelos e preparou o bote.

Foram segundos, apenas segundos, e lá estava Cecília, entre os dois, disparando nele um belo tapa digno de filme trash, e caindo no chão, como goiaba madura que cai do pé. Não satisfeita, Cecília começou a disparar insultos contra o pobre do Renato, que vendia beijos na barraca de beijos, e que nada entendia o porquê do tapa.

- Cretino! ... Como?... Como?... Alguém te contou?... Que eu estaria aqui... não é? Quem?... Diz quem? Não bastava uma? Eduardo... Porque tantas? ... Eu te amo! – E desmaiou.

Renato tomou Cecília pelos braços e saiu para o ambulatório. Lembrou do solavanco e de Cecília horas antes, na multidão, olhando de forma apaixonada para ele. As outras meninas protestaram, houve quem reclamasse com a direção da festa que o rapaz da barraca de beijo havia abandonado seu posto. Logo arranjaram um substituto para Renato, não tão interessante quanto ele, e pouco a pouco ninguém mais se lembrava da barraca, dos beijos, de Renato, e de Cecília.

Algumas horas depois Cecília acordou, e Renato estava lá. Por um momento, achou que era Eduardo, mas logo percebeu que não, e foi lembrando o que tinha acontecido. Um sentimento de vergonha começava a dominar todo o seu ser, até que de repente:

- Oi, eu não sou o Eduardo. Me chamo Renato, vendo beijos, ganhei um tapa, e você é linda.
- Oi... Me chamo Cecília – Ela sentia suas bochechas queimarem. – Me desculpe pelo tapa. Eduardo é meu ex-namorado, e você é muito parecido com ele.
- Ele é bonito?
- Sim, muito.
- Então o tapa está perdoado. Você vai ficar bem. Suas amigas acham que eu sou o cara que você se apaixonou antes de terminar com seu ex. Quer que eu seja?
- Não sei...
- Bom, não conheço o Eduardo, mas pelo tapa, acho que ele merece isso, não?
- É, pode ser... Mas, se for assim, temos que ter um início. Temos que combinar como nos conhecemos. Concorda?
- É verdade. Que tal você dizer que no meio da multidão, numa festa, a gente se esbarrou, eu lhe ofereci um beijo, e você aceitou?

Todos acreditaram na história. E chegaram a especular por ai que Cecília não sabia do “ofício” de Renato, por isso a surpresa e o tapa. Eduardo quando soube da paixão nova de Cecília, correu atrás dela exatamente como ela havia desejado. Implorou pela volta, prometeu amor eterno, um relacionamento mais maduro, um homem diferente. E fez mais, prometeu se casar com ela, lhe dar conforto, ser pai de seus filhos, ser fiel, ser qualquer coisa que fizesse Cecília voltar para ele. Tudo em vão. O mundo, em seu inevitável movimento, havia completado mais uma volta. Nada mais seria igual.

Cecília havia se apaixonado novamente.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Recomeço

Depois de tanto tempo ausente, eu gostaria de ter textos e mais textos guardados na gaveta, apenas esperando para serem postados aqui no blog. Mas advinhem? Não tenho. Por que? Não sei! A grande verdade é que durante todo este tempo eu esqueci de mim, de quem eu sou, do que gosto, do que me faz feliz. E nos poucos momentos que recorri ao papel para "derrubar" ali meu sofrimento, fiz de forma ingênua demais, sentimental demais, deprimida demais, "tudo de ruim" demais.

Mas... achei um poeminha perdido em um dos cadernos que fugiu um pouco à regra. Ele fala exatamente desta minha fase "sem inspiração", mas sem o melodrama típico de novela mexicana. Espero que gostem.


Eu sofro de um problema grave,
que de tão grave eu até gosto de ter.
Trata-se apenas de pouco assunto.
E de pouco assunto estou a morrer.

Porque não vim de família pobre,
nem sofrida foi minha longa infância.
Tive sempre bicicleta nova.
Tive sempre tempo para ser criança.

Mas agora, como eu invejo
o poeta, que de forma doce,
traz nos versos o sorrir incerto
da realidade que melhor não fosse.

E me pergunto, o que faço com ela?
Esta tristeza enorme que me assola o gozo?
Escrevo versos, e me aproveito dela,
e me perco nela,
e me encontro nela,
e sou poeta e feliz de novo.

Saudade

Escrever é o meu passatempo, o meu porto seguro, o meu bem-querer. Se escrevo bem ou mal, o que isso importa? Me faz bem, me faz tão feliz!
Não quero mais ter medo do acaso, do fracasso, das noites sem inspiração, dos surtos de agonia. Quero escrever o mundo, o meu e o seu, o nosso, o de todos nós. Quero escrever o sentimento, a dor e a paixão, e tudo o que nos mantém vivos.
Quero emocionar. Com risos, com lágrimas, com a verdade.
Voltei.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A Cidade do Sol - Khaled Hosseini


Toda vez que termino de ler um livro, tenho a sensação de que muitos e muitos anos se passaram bem na minha frente, em um piscar de olhos. Como um baú de recordações, o livro guarda ali personagens e historias que mexeram comigo, e que já fazem parte do meu passado. É como se eu tivesse vivido uma vida paralela, muito mais intensa que a real. Uma vida que teve início, meio e fim muito bem claros. Uma vida curta, que durou dias, no máximo semanas. Mas que eu verdadeiramente vivi.

Às vezes é difícil dar uma pausa nesta vida paralela para cumprir com as obrigações da vida real. E esta dificuldade torna-se quase uma impossibilidade se o drama paralelo nos envolve e nos prende. O escritor que consegue elaborar um drama assim constrói uma prisão às avessas: não entramos nela porque somos obrigados, mas sim porque queremos. Chegando lá, não queremos sair. Não queremos comer. Não queremos ver os amigos. E quando o tempo de reclusão acaba, é triste ir embora e deixar para trás aquelas grades que de certa forma não serviam para nada. Vamos embora não porque elas foram abertas, mas sim porque temos que ir.

Mas algo diferente acontece quando eu leio Khaled Hosseini. E, na minha opinião, é este o grande trunfo do escritor. Ele nos prende de uma forma diferente, como uma grande cobra que chega perto de mansinho e quando menos se espera, ela se enrola por toda a vítima. No início, parece mais um abraço forte, apertado. Se formos românticos, podemos até dizer que este abraço pode ser confundido com amor demais, e cuidado de menos. Mas aos poucos, a cobra vai apertando mais, e nosso corpo vai sendo destroçado de forma lenta e suave. No fim, sem percebermos direito, não nos sobra nada. Fomos engolidos, completamente devorados.

O livro conta a história de Mariam e Laila, duas mulheres afegãs que se encontram durante suas vidas e se tornam tão fundamentais uma para a outra que nada, nem um país inteiro poderia destruir o que foi construído entre elas, e principalmente, o que estava enraizado nos seus corações. Tratadas como lixo por uma sociedade de um extremismo inimaginável para as nossas cabeças ocidentais, essas duas mulheres conseguem manter-se vivas, mesmo quando a morte é o único caminho.

É difícil falar sobre o livro e não lhes contar mais do que devo. Mas vou me conter. “A Cidade do Sol” é um livro que deve ser lido e sofrido por todos. E se você não leu ainda, não se esqueça quando for ler do seguinte: apesar de ser ficção, o livro é a história infeliz e real de muitas e muitas mulheres que viveram sob o regime talibã, e que suportaram todos os capítulos deste livro de uma forma que a humanidade inteira ainda não conseguiu entender. Eu lhe prometo, você vai sentir a cobra destroçando os seus ossos. E no final, só lhe restará uma dúvida: como elas, todas elas, conseguiram?

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Casa do Saber - Lagoa



Muitos de vocês devem conhecer a Casa do Saber, que fica na Lagoa. Isso, aquele prédio bonitinho com sempre um monte de cursos disponíveis para todos os gostos. Já fez algum dos cursos? Então, eu nunca tinha feito. Até que uns dois meses atrás, resolvi me embrenhar em um curso de literatura. Influência do blog, com certeza. Mas o fato é que achei o título do curso magnífico: "Ritmos do Rio em prosa e verso". Ou seja, aulas inteirinhas sobre tudo o que já foi escrito ou cantado sobre o Rio de Janeiro. Como se não bastasse, o curso também tinha um viés de oficina de escrita, onde os alunos poderiam trazer os seus textos e lê-los na sala de aula. Confesso que este negócio de ter "platéia" me deixou um pouco tensa, mas não hesitei. Me matriculei e aguardei ansiosa pela primeira aula.

E a primeira aula foi maravilhosa. Me encantei. Pelo lugar, pelas pessoas, pelo professor, por tudo. E me encantei mais ainda pelo meu Rio amado. Descobri fatos e historias do Rio que eu nem imaginava existirem. Passei a amá-lo mais. A desejá-lo mais. E claro, com o coração amolecido pelo sentimento, quis escrever algo sobre o Rio, que eu pudesse levar na aula seguinte.

Mas eu só quis. Como é difícil escrever sobre o que gostamos! Como é difícil expressar com as palavras aquilo que o coração sente! E eu não pude fazê-lo. Simplesmente não pude, não consegui, não tive capacidade. Com o dia da aula chegando, e o desespero batendo na porta, eu tive que correr para o plano B. E o plano B era escrever sobre São Paulo. E aí você me pergunta: "por que é mais fácil falar de São Paulo?". E eu te respondo: "porque é muito mais fácil fazer uma crítica do que um elogio". É claro que o texto sobre São Paulo fluiu que nem água. E eu nem precisei ser tão criativa, bastou usar alguns fatos que tinham acontecido justamente no dia anterior, e pronto, saiu um texto quentinho e fofinho do forno. (o texto é esse logo abaixo deste post: “Um dia em São Paulo”)

Cheguei para a aula atrasada, e muito, muito ansiosa. Tão ansiosa que me esqueci de avisar ao professor que eu tinha um texto. Resultado? A aula terminou, e eu não li. Antônio, nosso mestre querido, me disse: "Carol, porque você não me falou? Leia na próxima aula, ok?". E eu voltei para casa num misto de alívio e frustração. Alívio porque existia sim, uma chance do meu texto ser medíocre, e ao invés de eu receber aplausos, eu poderia receber aqueles sorrisos amarelos que as pessoas fazem quando não querem dizer a verdade, sabe? Mas ao mesmo tempo, frustração, porque sim, eu poderia ter agradado os outros alunos e recebido palmas e elogios. Quem sabe o professor gostasse também? Seria a glória, não?

Então eu guardei o texto bem guardadinho e pensei: ok, só mais uma semaninha, não é nada. O que eu não esperava é que eu fosse ser atacada por uma inspiração que me rendeu outro texto: "A Barata". Eu simplesmente adorei o texto sobre a barata, fiz a família inteira ler, enchi meus olhos de emoção e pensei: "que texto sobre São Paulo que nada, eu vou ler na aula sobre a barata!!!".

E a terceira aula chegou. Então bem mais confiante do que na aula anterior, eu cheguei e já fui logo avisando: "tenho um texto hein!" E passei a aula inteira sonhando com o momento no qual eu me tornaria sim, por que não, uma celebridade, uma escritora de renome internacional, praticamente uma diva! E este momento chegou, sentei na cadeirinha do professor e comecei a ler. Fui lendo, fui lendo, e claro, todas aquelas expectativas loucas que eu havia criado na minha cabeça foram caindo aos poucos, letra por letra, frase por frase. Até que no último ponto final eu me toquei que o texto até tinha agradado ao público, mas não foi assim algo tão espetacular. Na verdade, não havia passado nem perto disso.

Então eu fui para casa pensando: "Ah Carol, mas você também hein. Sempre cria mais expectativas do que a realidade pode lhe proporcionar. Sempre o mesmo erro... sempre". Neste momento eu já havia decidido que não ia mais levar texto nenhum para a aula, e que eu iria guardá-los apenas para este espaço aqui, o blog, onde eu escrevo de forma anônima, sem cobranças e sem expectativas malucas.

E assim fiz, cheguei para a quarta aula de mãos abanando. O professor logo perguntou: "Cadê seu texto?". E eu respondi: "não trouxe Antônio, não trouxe...". E nessa hora eu senti certo desapontamento no rosto dele. Então passei a aula inteira num dilema terrível: leio o texto sobre São Paulo ou não leio? Seria um risco grande, eu mesma tinha gostado mais do outro, e se o outro não tinha feito o sucesso que eu imaginava, porque esse faria? E dessa vez havia um agravante muito pior, nós tínhamos convidados na aula, escritores, de sucesso, que escreviam sobre o Rio de Janeiro. E agora? Eu tinha que decidir rápido. Então antes que os outros alunos começassem a ler seus textos, e eliminando assim minha vontade de desistir caso eles viessem com textos maravilhosos, tomei coragem e falei: "Antônio, eu tenho um texto". E ele, espantado, perguntou: "Mas tem? Fez agora?". "Não Antônio, já tinha, consegui resgatar pelo blackberry".

E aí algo inusitado aconteceu. Chegou minha vez, e desta vez eu estava sem muitas expectativas. Os textos dos meus amigos de classe tinham sido de fato maravilhosos, e se eu não tivesse falado antes, provavelmente eu teria desistido. Então sentei na cadeira do professor, e de forma muito despretensiosa comecei a ler. E por ironia do destino, todas as reações que eu gostaria de ter tido com o outro texto, eu tive nesse. As pessoas riram, se entreteram, gostaram. E letra por letra, frase por frase, eu fui descobrindo que aquele texto estava melhor que o outro. No final, eu já estava rindo junto com a platéia, numa sensação de felicidade plena. Obviamente, o texto não me tornou uma celebridade, nem uma diva, muito menos uma escritora de renome internacional. Mas eu nem queria mais isso. Bastavam aqueles aplausos fortes e aqueles sorrisos sinceros. Fui para casa neste dia tão feliz que errei o caminho duas vezes. E nem fiquei chateada com isso.

A quinta e a última aula seriam sobre poemas. E aí neste quesito eu nem me arrisquei mesmo. Meus poemas são infantis, simples, imaturos. Para piorar, eu simplesmente esqueci da quinta aula e não fui. Como assim esqueceu? Pois é, todas as aulas eram às quintas-feiras, menos essa, que era numa terça. Eu e minha cabeça de vento deletamos este pequeno detalhe e pronto, perdi a aula. Que raiva. Mas tudo bem, não adiantava nada chorar pelo leite derramado. O jeito era me contentar com o ocorrido.

A última aula foi maravilhosa com vários convidados poetas, os quais eu me sinto muito honrada de ter tido a oportunidade de escutá-los recitarem seus próprios poemas. Após a aula, um choppinho no Bar Lagoa de encerramento, e a promessa de nos encontrarmos ou nos próximos cursos, ou quem sabe numa roda literária. Não posso falar pelos outros, mas lhes digo o seguinte: eu cumprirei a promessa, com certeza!

Meus agradecimentos especiais para o professor Antônio Torres, que de tão simples não transparece a primeira vista o mestre literário que é. Antônio já escreveu inúmeros livros e já ganhou inúmeros prêmios. Seus livros foram traduzidos para os quatro cantos do mundo. E mesmo com tanto sucesso, continua sendo essa pessoa doce que, mesmo o conhecendo pouco, tenho certeza que assim é desde sempre. Muito obrigada.




OBS: A Casa do Saber também disponibiliza cursos na Livraria da Travessa do Barra Shopping, e em São Paulo na Rua Dr. Mario Ferraz, no bairro de Jardins, e no shopping Cidade Jardim.

Crônica n°2 - Um dia em São Paulo

Eu ontem fui a São Paulo. Sim, a trabalho. Fácil de adivinhar, não? Me desculpem os paulistanos, mas eu só vejo dois motivos para visitar São Paulo: trabalho, ou conexão. Desta vez foi o primeiro que me fez pousar na pista curta do aeroporto de Congonhas em um dia chuvoso. Medo? Digamos que a eternidade se faz ali presente entre o momento do pouso e a constatação aliviada de que o avião está efetivamente freando. Num movimento involuntário, minhas mãos pressionam a poltrona da frente, e assim permanecem até perceberem que não há mais perigo. Logo em seguida, penso no absurdo desta minha atitude. Como querer parar o avião com as mãos? Peço desculpas ao vizinho da frente, ele não deve merecer o solavanco recebido, e sigo em frente. Afinal, cheguei em São Paulo, está na hora de engrenar a marcha rápida e pensar racionalmente.


Pego um taxi e sigo para a Faria Lima. E por um momento me lembro como é bom morar no Rio e pedir ao taxista: “pela praia, por favor”. Em São Paulo eu não faço a mínima questão de escolher o caminho, e minha única expectativa é que o dito cujo não esteja engarrafado. Pois não importa para onde você vá, com certeza a vista da janela do carro não será de praia, água de côco, bicicletas, muito menos um vôleizinho entre amigos. O caminho será cinza, sem graça, e se Deus quiser, curto.


São Paulo chega a ser engraçado de tão high business technology que tenta ser. Cada vez que chego lá, encontro uma surpresa diferente à minha espera. Desta vez foi com o elevador. Bom, digamos que a carioca aqui penou um bocado para entender que não servia entrar em um dos seis elevadores disponíveis e apertar o botão do andar desejado. Isso porque simplesmente o elevador não tinha botões. Ok, então como faço? Vai me dizer que agora é por telepatia? Enfim, quase me sentindo uma caipira na cidade grande, não tive escolha e perguntei: “Como se faz para pegar o elevador?”. E a paulista que estava ali presente me explicou que eu deveria primeiro indicar na maquineta ao lado de fora do elevador o andar desejado. Assim, ela, a maquineta, calcularia qual elevador seria o melhor indicado para o meu caso, e então eu ficaria ali a espera do meu “prometido”. Praticamente um conto de fadas, eu diria.


O resto do dia correu tranqüilo. A reunião foi ótima, o objetivo foi alcançado, e finalmente eu voltaria para o meu Rio querido. Então eu chamei o taxi, desci para a recepção e, de repente, quase como num filme de terror, um grito agudo tentou escapar da minha garganta. Mas o que saiu mesmo foi um sussurro abafado que disse: “que chuva é essa?”. É claro que Congonhas fechou, e eu me encontrei no aeroporto sem previsão para embarque, com todos os vôos anteriores ao meu já atrasados.


O que aconteceu? Eu não sei se foi o meu jeitinho carioca ou a minha feição de desespero que fez a atendente ser tomada por um sentimento de pena por mim. O fato é que meu vôo estava marcado para as 21:30h, e eu consegui, às 20:40h, fazer o check-in para o vôo das 20:00h. Então feliz e sorridente, e com a informação que os assentos seriam livres, entrei no avião e fui logo procurar uma janelinha no lado direito, que me proporcionasse a vista do litoral do Rio na chegada ao Santos Dumont.


E de fato eu teria tido uma vista linda do litoral do Rio iluminado à noite, se o avião realmente tivesse pousado no Santos Dumont. Pois adivinhem, não foi o que aconteceu. Eu já sabia que havia chovido bastante no Rio também, e que o Santos Dumont havia estado fechado por um tempo. Mas não imaginei que isto fosse obrigar o piloto a mudar, em cima da hora, a rota para o Galeão. Querem saber o pior? Meu carro estava no Santos Dumont. Então quando eu já estava sentindo o sangue subir, lembrei que o dia seguinte seria feriado. E querem saber o melhor? Um feriado exclusivo para cariocas, dia de São Sebastião, padroeiro da Cidade do Rio de Janeiro. Então eu apoiei novamente minha cabeça na poltrona e comecei a fazer meus planos para o dia seguinte: bicicleta, praia, sol, choppinho e picanha no Braseiro...